terça-feira, 21 de novembro de 2017

Charles Manson - Os crimes que chocaram a América e o mundo


Ele gostava de chamar a si mesmo de demônio e para muitos, ele de fato era um.

Quem o via hoje em dia, velho e desgrenhado, achava que não passava de um ancião frágil e inofensivo. Mas aparências enganam e apesar de ser um octogenário, aquele pacato prisioneiro do Setor de Segurança Máxima da Penitenciária San Quentin ainda causava muito medo nas pessoas. Tanto que, todos os seus apelos para obter liberdade condicional foram sumariamente negados. As pessoas temiam que uma vez solto, ele ainda poderia constituir uma ameaça. Não por conta dele mesmo, mas pelos que ainda poderiam ser manipulados por ele. 

Aos 82 anos, Charles Manson ainda era um dos homens mais temidos do sistema prisional dos Estados Unidos. Longe de ser um prisioneiro comum, ele era um símbolo: a própria imagem do fanatismo, da maldade e do horror em carne e osso. Em uma pesquisa realizada em 2005, ele ainda era considerado o criminoso mais temido da América. E é possível que ele continue sendo por muitos anos, mesmo depois da sua morte.

Manson era um prisioneiro diferenciado, talvez pelo fato de ser um criminoso ao longo de praticamente toda sua vida. Aos 82 anos de vida, ele havia passado apenas 19 em liberdade. Os outros 63 haviam transcorrido atrás das grades, sendo que as últimas quatro décadas de modo ininterrupto. E foi apenas por um irônico acaso que ele continuou dessa forma, já que o Sistema judicial da Califórnia foi alterado em 1971, revogando a sentença de pena de morte. Charles se beneficiou dessa mudança e não foi executado, ainda que ele tenha recebido cinco condenações capitais em juízo. Há muito tempo os pulmões de Manson deveriam ter estourado pela ação da câmara de gás, mas ao invés disso ele foi condenado a habitar um limbo nos porões mais escuros e profundos de San Quentin. Sem direito a apelos ou condicional, já que recebeu uma sentença de prisão perpétua. 

Manson quando foi preso e recentemente 
Muitas pessoas dizem que ele teve sorte de ter envelhecido na prisão, de onde administrava sua própria página da internet e gravava seus discos de rock nos quais lia versos bíblicos, do Corão e peças de poesia. Ele ainda pedia por liberdade condicional, sabendo que esta seria negada. Alguns artistas, astros do rock e defensores dos direitos civis imploravam clemência, mas a verdade é que ninguém realmente queria vê-lo livre. Charles dizia não se arrepender de nada, e o mundo não estava pronto para perdoar os crimes que ele orquestrou. A memória do dia em que três mulheres e um rapaz, todos seguidores fanáticos de Manson despedaçaram sete pessoas que sequer conheciam, obedecendo ordens diretas de seu Profeta, Deus ou Demônio. Charles Manson, foi um pequeno criminoso com delírios de grandeza. 

Foi a faxineira que fazia a limpeza toda semana que descobriu os corpos. Como fazia todos os sábados ela chegou para o trabalho naquela manhã ensolarada de 9 de agosto de 1969. A casa pertencia a um dos casais mais famosos de Hollywood, a mansão em estilo espanhol era do diretor de cinema Roman Polanski, então com 36 anos, e da sua jovem esposa, a talentosa atriz Sharon Tate de 26 anos. A propriedade ficava na tranquila vizinhança de Cielo Drive, uma região habitada por muitos astros de cinema. Tudo estava muito silencioso e a faxineira por um instante achou que os donos não estavam, mas logo percebeu que algo estava errado: havia uma mancha de sangue na entrada da cozinha. E quando ela foi verificar os fundos da casa, encontrou dois corpos caídos em uma enorme poça de sangue. Ao fugir em disparada topou com um terceiro cadáver no interior de um automóvel na garagem. Aterrorizada, foi até os vizinhos mais próximos gritando que havia acontecido algo terrível.

A cena dantesca causaria horror até mesmo nos policiais chamados para entrar na mansão, pois enquanto seguiam os rastros de sangue pela propriedade de Polanski encontravam sinais de que algo medonho havia transcorrido. Não apenas mortes brutais, mas algum tipo de catarse emocional na qual o assassinato parecia ser o brusco desfecho. A palavra "porcos" (pigs) havia sido pintada com sangue nas paredes do corredor. No salão encontraram o corpo sem vida de Sharon Tate, tombada de lado em posição fetal, nua e coberta com algumas pétalas de flores casualmente jogadas sobre seu corpo. Várias punhaladas marcavam peito e costas, sobre o ventre inchado - já que estava grávida de oito meses, estava entalhado com faca um "X". Uma corda branca estava presa em seu pescoço e a outra ponta ligava ao corpo de um homem mutilado com golpes violentos de faca e cutelo. O rosto coberto com uma toalha ensanguentada havia sido desfigurado além de qualquer reconhecimento.

Uma das últimas fotos de Roman Polanski e Sharon Tate
Uma carteira de identidade em seu bolso dizia se tratar de Jay Sebring (35 anos), o cabeleireiro de Sharon, um dos mais requisitados da cidade. Os cadáveres caídos no jardim pertenciam a Abigail Fogler (26), rica herdeira de uma Indústria cafeeira e o cineasta polonês Voyteck Frykowski (37). Os três eram amigos pessoais de Polanski e haviam ido fazer companhia a sua esposa já que ele estava trabalhando em Londres. O ocupante do automóvel - e depois souberam, a primeira vítima do massacre, era Steven Parent, um estudante de 18 anos que teve o azar de estar indo visitar um amigo que fazia a segurança da mansão. O guarda por sinal, não viu ou ouviu nada, ele estava de folga e morava numa propriedade ao lado, situada a certa distância.

Mas o horror que começou naquele sábado, com a notícia daquela tragédia, iria continuar a assombrar Los Angeles até o domingo à tarde quando Frank Struthers, de 15 anos chegou à casa de sua mãe Rosemary de 36, e seu padrasto Leno La Bianca, de 44, proprietário de um supermercado no elegante bairro de Los Feliz. O rapaz encontrou La Bianca deitado no sofá da sala, com uma almofada empapada de sangue pousada sobre sua face. Tinha um cutelo de cozinha cravado na garganta e do pijama que vestia se projetava o cabo de um garfo com empunhadura de marfim. Frank quase desmaiou, mas ainda conseguiu correr para pedir ajuda. 

O corpo de sua mãe foi descoberto pela polícia no quarto do casal. Rosemary La Bianca estava caída de barriga para baixo em uma poça de sangue com a camisola de dormir enrolada na altura do pescoço, as costas, nádegas e pernas cobertas de perfurações. Uma almofada também havia sido colocada sobre a cabeça. Na sala de estar haviam sido pintadas três palavras com sangue: "Morte aos Porcos" (Death to pigs), "Erga-se" (Rise) e "Confusão e Caos" (Helter Skelter

A lista do Massacre
O sinistro fim de semana contabilizou os seguintes números apavorantes: Sharon Tate recebeu 16 perfurações por faca; Jay Sebring, sete golpes de faca e um ferimento de arma de fogo; Abigail Folger, 28 perfurações; Voyteck Frykowski, 51 ferimentos de armas brancas variadas, dois tiros e 13 golpes contundentes na cabeça (é provável que ele tenha lutado antes de morrer); Steven Parent, recebeu quatro tiros e uma punhalada; Rosemary La Bianca, 41 feridas causadas por facas, cutelo e garfos, e Leno La Bianca, 26 apunhaladas. Em seu ventre, próximo do garfo que havia sido enfiado até o cabo na sua carne, estava talhada a palavra "Guerra" (War).

Toda Los Angeles ficou estarrecida. Quem poderia ser o responsável por esses horrendos massacres? Qual seriam os motivos para promove tamanha barbárie? Desde logo, a polícia afastou a possibilidade de que os crimes haviam sido motivados por roubo, uma vez que não faltava nada da mansão de Polanski. Os detetives encontraram vídeos pornográficos e pequenas doses de drogas na propriedade que deu margem para as mais estapafúrdias teorias: orgias sexuais, tráfico de entorpecentes, rituais demoníacos, sacrifícios humano... 

As pessoas diziam que o demônio havia se manifestado na mansão para cobrar de Polanski e de Tate o preço pela fama que haviam conquistado. Polanski apenas um ano antes, havia conseguido enorme sucesso com o lançamento de seu filme mais conhecido até então "O Bebê de Rosemary" cujo enredo tratava de pactos e demonologia. Religiosos fanáticos diziam que o demônio havia sido conjurado para a mansão dos Polanski em algum tipo de Missa Negra na qual os participantes foram mortos. Exorcistas falavam da necessidade de purificar a propriedade. Videntes e médiuns chegaram a se apresentar à polícia, oferecendo suas habilidades extra-sensoriais para encontrar o demônio que agora, estava à solta em Los Angeles. Diziam que o casal La Bianca também estava envolvido com bruxaria e que provavelmente eles haviam sido punidos pelos mesmos motivos. A paranoia cobriu a Cidade dos Anjos com uma mortalha sanguinolenta. Durante alguns dias festas foram canceladas e o calendário de eventos de Hollywood foi todo remodelado. As pessoas voltavam cedo para casa, temendo o que poderia acontecer a elas. A venda de armas disparou na cidade, bem como o de trancas e fechaduras. Ninguém se sentia à salvo e o medo irracional por alguma coisa sobrenatural parecia atingir até mesmo as pessoas mais razoáveis.

"Morte aos Porcos" escrito na parede da Mansão Polanski
A imprensa fez um enorme estardalhaço a respeito do caso, cobrando da polícia medidas urgentes para descobrir os responsáveis. Todo contingente da polícia foi chamado para vigiar as ruas e parar qualquer suspeito. O medo dominava os boletins jornalísticos e era possível sentir o pavor que crescia em cada casa.

Enquanto isso, a apenas cerca de meia hora do centro da cidade, seis pessoas que conheciam todos os detalhes a respeito do horrível crime comemoravam sua façanha. Aos seus olhos, eles haviam logrado sucesso em seu intento: colocar a cidade de joelhos e instalar um clima de medo e apreensão em cada habitante de uma das maiores metrópoles do país.

A fazenda modesta chamada Spahn´s Movie Ranch, parecia abandonada. O grupo vivia de maneira comunal, assistiam filmes de faroeste, comiam frutas carameladas e riam sem parar de suas próprias piadas. O líder do bando era um sujeito de cabelo e barba comprida, roupas chamativas, violão sempre às mãos e olhos penetrantes. Tinha uma fala mansa e tranquila, que agradava aos que ouviam. Ele era um tipo de conselheiro espiritual, um guru que simbolizava um porto seguro para os que se concentravam ao seu redor, cerca de 40 jovens, na maioria garotas. A comunidade era formada basicamente por hippies. Como muitos outros jovens da Baixa Califórnia, eles acreditavam desafiar o sistema e as convenções em busca de uma vida mais simples e pacífica. Passavam seus dias ouvindo música, brincando e usando drogas, tinham uma pequena plantação no quintal da propriedade, mas complementavam suas refeições com o que conseguiam obter de doações ou de material que era jogado fora por mercados e vendas. Não havia luz elétrica, nem instalações de água ou gás. Tudo era compartilhado pelo bando e as decisões eram tomadas mediante votação. Ou ao menos, era o que diziam...       

"Charlie" pouco antes de ser preso.
Na verdade, o líder do bando, um homem de 35 anos chamado de Charlie agia como um prefeito da comunidade. Ele decidia o que deveria ser feito, como o pouco dinheiro do grupo seria gasto e quais seriam os seus planos. Charlie tinha enorme talento para trazer novos membros para o grupo, na maioria adolescentes com problemas de relacionamento com suas famílias e que temiam entrar na vida adulta e por isso fugiam. Charlie oferecia mais do que um lar temporário e companheirismo, ele sinalizava com a chance de fazerem parte de uma "família". E a "Família Manson" crescia muito naqueles dias.

Entretanto, a despeito da imagem que tentava passar, o amável Charlie não era um homem preocupado com a "Família", na verdade, ele não tinha nenhum escrúpulo em manipular e obrigar seus seguidores a fazer o que ele desejava. Um controlador nato, Charlie, ou melhor Charles Manson fazia o que bem entendia e impunha real poder sobre a vontade de todos à sua volta. Com um físico franzino e uma postura amigável, transbordando carisma, ele suscitava uma imagem de ternura; escrevia poesias com suas experiências de vida, tocava violão com suas composições, se colocava ao lado dos jovens contra figuras de autoridade que as afligiam (na maioria das vezes pais). Defendia ainda o uso de drogas, álcool e a prática de sexo livre que usava para atrair os jovens. Ele tinha uma conversa fácil e convincente que servia para ganhar a devoção da sua platéia. 

Com o tempo, aprendeu que a maneira mais eficiente de controlar sua "família" era fazendo com que eles acreditassem ser ele uma espécie de Guia Espiritual. Apesar de Charlie defender o "amor" e a "fraternidade" como metas para um mundo melhor, ele não tolerava qualquer questionamento das suas ordens. Seu tratamento era severo para com os que desafiavam a sua autoridade. As meninas que se juntavam ao grupo precisavam ceder aos seus avanços e ele as obrigava a fazer sexo com rapazes do grupo para assim manter o controle sobre eles. Também era ele quem controlava o acesso a drogas que eram distribuídas em rituais elaborados. Manson lentamente criava uma espécie de dependência extrema, na qual ele próprio era a figura central na vida dos seus jovens seguidores. A lavagem cerebral era tão profunda que o discernimento desaparecia por completo, tudo o que importava era promover a satisfação de Charlie. Se ele não estivesse feliz, eles não poderiam ficar felizes.

A Família Manson reunida
Adicionando componentes místicos - convenientemente extraídos de livros religiosos, Manson começou a galgar os passos que o transformariam em um auto-proclamado Messias. Os rapazes e moças viam nele um tipo de Profeta Hippie cujos ensinamentos seriam divulgados para o mundo na forma de música e poesia.  

É provável que a ingenuidade do período tenha ajudado muito a seduzir os jovens incautos, mas Manson era tudo menos inocente. Nascido em 12 de novembro de 1934, em uma região pobre dos arredores de Cincinatti (Estado de Ohio), Charles nunca teve uma vida fácil. Sua mãe, Kathleen Maddox, tinha quinze anos quando fugiu de casa, tentando escapar da vigilância constante de pais extremamente religiosos. Apenas um ano mais tarde, ela engravidou de uma relação com um amante ocasional. O menino recebeu o nome Charles Manson que pertencia a um outro sujeito com quem Kathleen estava saindo depois de engravidar. O relacionamento também não durou muito, e ela foi abandonada. Por conta própria e com um bebê para sustentar, ela passou a se prostituir.


Em 1940, Kathleen foi condenada após tentar roubar um posto de gasolina e Charlie, que acabara de completar seis anos foi enviado para viver com parentes até que ela saísse da prisão. Durante esse período o menino entrou em contato com pessoas religiosas que lhe ensinaram os princípios da crença que mais tarde lhe seriam muito úteis. Após a mãe deixar a cadeia, decidiram se mudar de cidade e não demorou até ela conhecer um novo companheiro. O homem, no entanto, não queria se tornar pai de um rapaz de doze anos, por isso, Kathlen decidiu abandonar o próprio filho. Ele foi deixado aos cuidados de um assistente social que após uma entrevista julgou o rapaz problemático e decidiu interná-lo em um hospício. Lá ele passava os seus dias, em suas proprias palavras "rezando e chorando". Alguns anos depois, Charlie conseguiu escapar da instituição e foi em busca da mãe que, ele esperava, o receberia de braços abertos. Katherine ao invés disso o devolveu ao hospício, deixando no filho nada além de um profundo sentimento de amargura e ódio.  

Charlie eventualmente conseguiu ser aceito em um albergue num regime especial de onde poderia trabalhar, desde que se apresentasse para dormir. Em sua nova casa ele era frequentemente surrado pelos guardas e pelos meninos mais velhos que roubavam o seu dinheiro. Há indícios de que ele tenha sido violentado pelos outros internos, o que fez com que aprendesse desde cedo que não poderia confiar em ninguém. Durante sua adolescência, Charlie foi transferido para outros quatro centros educacionais públicos, até completar 19 anos e ganhar liberdade condicional. Era o ano de 1954 e ele havia se tornado um rapaz muito articulado e atraente.

Ele conseguiu seu primeiro trabalho no hipódromo onde era ajudante de cocheira. Depois de numerosas experiências sexuais, muitas delas com homens, começou a se prostituir para ganhar dinheiro. Em certa ocasião comprou uma câmera e a usava para fotografar seus parceiros para depois chantageá-los. Charles chegou a casar, mas a situação econômica dele e seu controle extremo fez com que se separassem alguns meses mais tarde. Charles foi preso por roubar carros, indo parar na prisão mais uma vez. Libertado em 1958 voltou a vagar sem destino, prostituindo-se ou coagindo mulheres a lhe dar dinheiro. Nesse meio tempo ele foi preso várias vezes, entrando e saindo de centros correcionais. Em 1960 foi condenado por falsificar um cheque no valor de 37 dólares. Tinha 26 anos e já era um hóspede frequente do Departamento Correcional, no qual ingressava e saía.   

Durante sua estadia no Presídio de Terminal Islands, ele recebeu instrução, aprendendo a compor e tocar guitarra. Também teve acesso a livros que devorava diariamente. Os temas que mais lhe interessavam eram ciência, religiões, psicologia e folclore. Charles se gabava de ter aprendido noções sobre hipnotismo e maneiras de influenciar as pessoas. Também se tornou um frequentador assíduo do serviço religioso que era oferecido aos prisioneiros. Foi ajudante de missa e começou a decorar passagens inteiras da Bíblia que citava com grande devoção. Outros presos passaram a tê-lo como um bom companheiro, revelavam seus segredos e ele oferecia um "ombro amigo" sempre que eles precisavam, o que ajudou muito a conhecer a natureza humana.

Manson adquiria aos poucos os requisitos que o ajudariam a criar a imagem de uma pessoa agradável e simpática em quem todos confiavam. Quando terminou de cumprir sua pena de sete anos ele foi posto em liberdade. A essa altura ele já havia se convertido em um perfeito manipulador, alguém capaz de usar os outros em causa própria.

Quando Manson deixou a cadeia perguntaram a ele para onde iria e ele não teve dúvidas em responder: "Los Angeles. Vou conquistar aquela cidade!"   

(cont...) 

domingo, 19 de novembro de 2017

Dança com os Cadáveres - Costume no Madagascar pode causar o retorno da Peste



Dança com os Cadáveres.

Parece o nome de uma banda ou de uma brincadeira de Halloween, mas se alguém nessa festa típica do Madagascar convidar você para participar, talvez seja melhor arranjar uma desculpa qualquer ou entender bem do que se trata.

No Madagascar, essa ilha pitoresca na Costa Oriental da África, existe um festival religioso conhecido como "Famadihana". O nome pode ser traduzido como "revirar os ossos" e envolve abrir os mausoléus e tumbas, apanhar os ossos de entes queridos, amarrá-los montando uma estrutura corporal, vestir o cadáver resultante e honrá-lo com um tipo de Dança Ritual.

Por mais estranho que possa parecer, a tradição incomum não é antiga, mas um costume surgido há poucos anos e que tem causado desconforto e polêmica. Existem várias culturas mundo a fora que honram os cadáveres dessa maneira, mas na maioria dos casos, tratam-se de costumes tribais muito antigos, praticados na África, por tribos na India, Sudeste Asiático e Indonésia. Até então, tal coisa não existia em Madagascar.

Um dos princípios centrais dessa tradição é que o cadáver precisa ter a oportunidade de ser honrado pelos seus amigos e parentes em uma espécie de "bota fora" no qual os mortos são os convidados principais. Certos povos acreditam que o espírito não é capaz de entrar no outro mundo enquanto seus restos não tiverem se decomposto por inteiro. 


Em Madagascar, o costume parece ter surgido com o pedido incomum de uma pessoa desenganada, que implorou aos amigos e parentes que na iminência de sua morte, seu cadáver fosse recuperado e levado em uma festividade que aconteceria no ano seguinte. O pedido foi cumprido e aparentemente, a cada ano, mais e mais pessoas se unem ao festival, desenterrando seus mortos e levando a macabra celebração. O Famadihana está se tornando rapidamente um acontecimento no país.

Durante a véspera do Famadihana, não é estranho ver cemitérios sendo escavados e cadáveres sendo exumados. As pessoas envolvidas usam cordas tecidas com cabelos humano para juntar os restos mortais fazendo com que eles ganhem certa integridade. A seguir, os cadáveres são vestidos com trajes festivos coloridos e montados em estruturas para que pareçam estar de pé. Cadáveres reduzidos a pouco mais do que ossos podem ser colocados em caixões ou montados em cadeiras, concedendo à procissão um caráter ainda mais mórbido.

A comitiva então desce as ruas próximas dos cemitérios em completo silêncio. As pessoas vestem trajes bonitos e sóbrios e muitas carregam velas. Entretanto, ao se afastar dos portões e muros que marcam a morada dos mortos, bandas de música típica dão o tom da festa e as celebrações se iniciam com danças, risadas e muitos festejos. As músicas são marcadas por um ritmo típico do Madagascar e um dos costumes é fazer com que os Cadáveres participem ativamente de cada momento da festa, afinal eles são os "convidados de honra" e são tratados como tal.


A "Dança com Cadáveres", um dos momentos mais esperados do festejo ocorre quando um espaço é aberto e pessoas carregando os corpos evoluem ao som da música fazendo com que os restos pareçam estar dançando. Em alguns lugares, outros costumes macabros são observados, entre os quais o de "alimentar" os cadáveres com comida e bebida que é colocada na boca escancarada das caveiras. Em alguns lugares, mulheres são convidadas a beijar as caveiras e até simular situações de sexo com elas (!!!)

Quando começa a escurecer, é chegado o momento de terminar as celebrações. Os cadáveres são cuidadosamente desmontados das estruturas em que foram amarrados e levados silenciosamente de volta ao cemitério para serem enterrados. O féretro é realizado em total silêncio, com grupos de carpideiras simulando o pranto e lamentando-se. A ideia é que a simulação de que se trata de um enterro afasta os fantasmas que podem querer se vingar dos espíritos festeiros.

Por mais estranho e bizarro que pareça o costume da Famadihana continua sendo realizado nos últimos doze anos. Mas existe uma Grave Ameaça em sua realização.


Segundo alguns jornais de Madagascar e Organizações Internacionais de Saúde, tem havido um dramático aumento no que já vem sendo chamado de Epidemia de Praga (nesse caso, trata-se de Praga Pneumológica - uma severa infecção dos pulmões causada pela bactéria Yersinia pestis que alguns especialistas acreditam seja uma variação da Peste Bubônica). Há alguns anos uma epidemia dessa doença causou mais de 500 mortes em Madagascar e se tornou uma preocupação para váriso observadores de doenças. 

"Se uma pessoa morre em decorrência de Praga Pneumológica e é enterrada numa tumba que subsequentemente é aberta para a famadihana, existe uma boa chance da bactéria ainda estar ativa. Ela pode então ser transmitida e contaminar todos que se aproximarem ou manipularem o cadáver", explicou um membro da Organização Médicos sem Fronteiras.

O Ministro da Saúde de Madagascar Willy Randriamarotia disse que o país registrou mais de 1,100 casos da praga desde Agosto de 2017, resultando em pelo menos 124 óbitos. A doença até alguns anos atrás havia sido debelada e se encontrava sob controle. Em uma tentativa de combater a praga, a famadihana vem sendo proibida, mas isso não impede que ela aconteça de maneira clandestina em várias partes do país. Onde a polícia tentou conter os participantes houve inclusive violência e para evitar impopularidade, alguns prefeitos são coniventes com a realização da celebração.


Muitas pessoas que participam da Famadihana afirmam que essa é uma maneira legítima de honrar os seus entes queridos e lembrar deles como indivíduos importantes:

"Os mortos estão sempre ao nosso redor, eles não são meros objetos. Eles não devem ser esquecidos, precisam ser celebrados! Eu sempre irei participar da celebração e quando eu morrer, também espero que meus parentes façam isso por mim!" contou uma participante das celebrações esse ano.

Provando que teorias conspiratórias são um fenômeno mundial, Josephine Ralisiarisoa participante de ativa da festa, culpa o governo de Madagascar pela epidemia:

"O Governo é corrupto! Ele inventa coisas como essa epidemia de Peste. Não existe nenhuma peste! Eu participei de mais de quinze famadihana e estou em perfeita saúde. Eu nunca peguei a praga".

Seja como for, a discussão parece estar longe de uma solução. No ano que vem, Madagascar terá uma Eleição Presidencial e um dos assuntos que tem movimentado a corrida eleitoral no país é justamente a marginalização da Famadihana. Dos quatro pré-candidatos, dois são contrários a celebração, mas dois afirmaram categoricamente que são favoráveis a um estudo profundo que possa liberar o festival da Dança dos Cadáveres. De fato, ele parece estar cada vez mais popular, chegando a outras nações vizinhas que também estão imitando o perigoso costume.


Um dos grandes perigos é que a Praga Pneumológica é bastante propensa a sofrer mutação. No caso de uma epidemia em larga escala, a moléstia pode adquirir maior resistência e se disseminar ainda mais rapidamente, criando condições ideais para epidemias que varreriam cidades inteiras.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) tem cobrado do Governo de Madagascar medidas enérgicas para conter a Famadihana, tratando-a como um problema de saúde que vai além das fronteiras. Seria esse o início de uma nova e devastadora epidemia de Peste Bubônica? É preciso recordar que a ignorância e a superstição foram um dos catalizadores da Grande Peste que varreu a Europa no século XIII e decretou a morte de quase 60% da população urbana. 

A Famadihana é uma celebração que visa honrar os mortos e fazer com que eles sejam eternamente lembrados, a maior ironia, entretanto, é que as pessoas que dela participam podem muito bem ser aqueles cujos cadáveres serão carregados em breve. 

E o ciclo tende a se repetir..

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Monstros de Ferro - Os projetos de Super-Tanques da Grande Guerra


Em uma época em que a Guerra Total parecia não ter fim e o horror das trincheiras rasgava a Europa de um extremo ao outro, quanto mais potentes e maiores as armas, melhor.

A Grande Guerra (1914-1918) foi um conflito extremamente sangrento, apenas o primeiro de um século marcado por violência, brutalidade e destruição em nível industrial. Armas letais, máquinas bizarras e dispositivos até então impensáveis, jamais testados em campo de batalha, surgiam de ambos os lados e eram imediatamente colocados em uso na ânsia de provocar mais danos no lado inimigo.

Foi nessa época que um termo não oficial surgiu para descrever uma categoria que ia além dos veículos militares que haviam surgido poucos anos antes. Máquinas ferozes, verdadeiros monstros de ferro, com blindagem de aço e aspecto aterrorizante. Mas do que tanques de guerra pesados, esses eram Super-Tanques.

É curioso, mas praticamente todas as grandes potências europeias envolvidas no conflito realizaram testes para desenvolver Super-Tanques. A Alemanha, o Reino Unido, a França e a Rússia, chegaram a criar projetos em segredo para a construção dessas terríveis máquinas de destruição. Contudo, nenhum desses projetos chegou a ser utilizado ativamente antes do final da guerra, em parte pelo custo, mas principalmente pelas dificuldades técnicas na construção de tais armas. Ainda assim, parecia haver uma espécie de corrida armamentista para desenvolvimento dessas máquinas.


De fato, muitas nações consideravam que era questão de honra triunfar sobre seus oponentes no campo das inovações tecnológicas com novos implementos bélicos. A Guerra que começou com armas de fogo simples, cavalos e canhões havia progredido em uma velocidade incrível, permitindo o surgimento de metralhadoras, aviões, submarinos e tanques blindados. Os Comandantes esperavam ansiosos pela próxima criação que viria a reforçar seus exércitos, mudando o panorama da guerra.   

O Char 2C, idealizado pelo Exército francês talvez tenha sido o único Super-Tanque construído no período, mas haviam planos para muitos outros. Os franceses o incorporaram às Forças Armadas, contudo ele jamais foi testado em combate. Os Super-Tanques britânicos e russos, por sua vez, permanecem no reino da fantasia, em desenhos de seus idealizadores, jamais indo além da fase conceitual. Os alemães desenvolveram o conceito de Super-Tanques realmente monstruosos. Dentre todos, possivelmente foram eles que chegaram mais perto da criação de tanques de guerra que mereciam a alcunha de "Super-Tanques". O Alto Comando Alemão chegou a considerar que a grande virada no curso da guerra poderia ser alcançada com o uso dessas máquinas. Mas dada a falta de recursos nos dias finais da Grande Guerra, o custo se tornou alto demais. Sem os recursos necessários, os alemães jamais levaram adiante seus planos que pararam na fase de protótipos. 


O que mais impressiona a respeito dos Super-Tanques é a ambição de seus engenheiros e criadores.  No papel, eram armas imensas, capazes de causar destruição em larga escala e levar a ruína a cidades inteiras com seu alto poder de fogo e as barragens contínuas que despejariam sobre elas. Eles seriam resistentes a bombardeios, granadas e às armas mais potentes; virtualmente nada conseguiria romper sua blindagem reforçada por camadas de ferro. Eles se moveriam lentamente, mas seriam perfeitamente móveis, atrelados a trens e composições para que pudesse atingir os alvos desejados. 

Talvez uma das maiores bençãos para a humanidade tenha sido o fato desses monstros não terem sido construídos, mas suas marcas permanecem, como uma peça peculiar da história militar.

Vejamos alguns Super-Tanques:

1. K-Wagen, Alemanha



Os alemães são conhecidos pela sua capacidade técnica e pelas proezas de engenharia. Durante a Segunda Guerra, os blindados nazistas eram considerados tão superiores perante os tanques aliados que todo o programa americano e soviético foi refeito após a guerra para adotar os princípios alemães. Tanques como o Tiger II e o Leopard eram tão avançados que serviram de base para a criação de todos os tanques modernos.

O início da indústria militar de tanques na Alemanha, contudo, foi pouco impressionante. Apenas em 1917, no final da guerra, o Império alemão deu início a construção de Tanques de Guerra através do A7V, o primeiro veículo de combate blindado da história alemã. 

O A7V tinha muitos defeitos, entre os quais o motor de baixo rendimento. Contudo, seu potencial era evidente, como ficou claro logo no início de sua utilização em territórios irregulares cheios de trincheiras. O A7V conseguia percorrer o caminho da Terra de Ninguém, repleto de crateras e detritos. Era preciso um obstáculo realmente desafiador para segurar seu progresso, tanto que ele ganhou o apelido desagradável de "esmagador de ossos" pela sua capacidade de atropelar quem ficasse na frente. 

Os alemães não ficaram parados e continuaram a melhorar seu tanque esperando que ele pudesse mudar o curso da guerra. Muitos Generais achavam que a solução para terminar com o impasse nas trincheiras era produzir tanques que simplesmente avançariam pela terra de ninguém e sobre quem quer que ousasse se manter diante dele.

Por volta de meados de 1917, a K-Wagen, uma empresa que investia em motores de tratores recebeu o sinal verde para sua produção. O pioneiro da engenharia de tanques na Alemanha Joseph Vollmer, foi instruído a criar um tanque que deveria aprimorar ainda mais as características do A7V. Ele deveria ser capaz de irromper através de qualquer terreno, sob quaisquer situação. E nada poderia pará-lo!


Apenas um dos protótipos do K-Wagen foi concluído pouco antes do término da guerra. Entretanto, ele foi destruído após os acordos do Tratado de Versalhes, que proibia a Alemanha de produzir e possuir tanques em seu arsenal militar. Dizem que os britânicos tentaram alistar Vollmer no Corpo Real de Engenharia Militar, mas ele se negou a fazê-lo, sendo então preso. Vollmer temia que sua arma mais letal pudesse ser usada contra seu próprio povo em uma futura guerra. E ele tinha muitas razões para temer essa tecnologia nas mãos de qualquer inimigo em potencial.

O K-Wagen seria um verdadeiro monstro em seu tempo. Ele era armado com quatro canhões fixos de 77 mm, dois na dianteira e dois na parte traseira. Ao redor da torre de comando, ele possuía nada menos do que sete Metralhadoras Maxim rotativas, sendo que essas armas podiam ser movidas para atingir alvos em qualquer posição. Com poder de fogo pleno, as sete metralhadoras poderiam produzir uma barragem com mais de 10 mil disparos por minuto, o bastante para devastar uma posição inimiga. Os planos do K-Wagen supunham que ele transportasse uma tripulação de 27 homens, entre pilotos, artilheiros e municiadores. 

O Super-Tanque pesava incríveis 120 toneladas e tinha uma espécie de pá de trator na parte da frente que era usada para atropelar e destruir bunkers inimigos. Uma corda de aço podia ser presa em dois tanques simultâneamente e usada para destruir árvores, cortando-as ao meio, essa corda também podia ser empregada na destruição de prédios e edificações.

A despeito de seu armamento pesado e poder de destruição, a proteção do K-Wagen era "fina" com apenas 30 mm. Comparado com tanques da Segunda Guerra ele estava na categoria de blindagem média. É provável que os engenheiros pretendessem conceder ao Super-Tanque uma blindagem superior, mas a falta de recursos nos dias finais da Guerra os levaram a assumir um projeto mais realista. Em parte, a blindagem pouco eficaz foi um dos motivos para que o tanque jamais fosse uma prioridade para as Forças Armadas que consideravam o veículo pouco resistente.

2. Mendeleev Rybinsk Tank, Império da Rússia



O Mendeleev Rybinsk recebeu o nome de seu criador, Vasily Mendeleev, e pela cidade em que os primeiros desenhos do veículo foram apresentados para os oficiais do Exército Imperial Russo

Os russos tinham interesse em tanques de guerra, em parte por que as suas forças armadas eram consideradas incrivelmente atrasadas em questões de tecnologia e desenvolvimento bélico. Além disso, tinham um parque industrial consideravelmente menos desenvolvido que as demais potências e viam nos complexos militares uma forma de desenvolver mais tarde sua industria pesada. Seria uma maneira de modernizar o país e fazer com que ele entrasse, mesmo que atrasado na Revolução Industrial.

Os Tanques Russos, no entanto, eram bem pouco eficazes. A tecnologia de motores era rudimentar e seus veículos lentos e pesados não tinham muito uso nos campos de batalha cobertos de neve e gelo. Alguns dos tanques usados pelos russos, cedidos pelos britânicos, haviam sido um verdadeiro fiasco quando empregados no front e os próprios generais, arraigados a tradições de cavalaria, acreditavam que o Tanque jamais teria uso prático como apoio da infantaria. Preferiam recorrer aos destacamentos montados pela sua velocidade e agilidade.


Ainda assim, Mendeleev recebeu ordens para trabalhar na criação de um Super-Tanque que poderia ser utilizado com o objetivo de levar artilharia e disparar atrás das posições inimigas ou em cidades. O veículo idealizado por Mendeleev e que jamais avançou além de um conceito teria dois imensos canhões de 127 mm, instalados sobre um grande corpo semelhante a um vagão de trem pesando 173 toneladas. Ele seria operado por 13 homens e poderia disparar, em condições ideais até 2 vezes a cada cinco minutos, criando assim uma barragem contínua de fogo. O plano é que o Mendeleev Rybinsk pudesse ser posicionado até 8 quilômetros de um alvo e de lá disparasse continuamente até reduzi-lo a ruínas. Muito mais blindado que o Super-Tanque alemão, ele teria placas de aço reforçado com 70 mm de espessura. Ele contava ainda com um sistema revolucionário de suspensão à gás e um motor de alta performance que rodaria com combustível especial.

Um dispositivo único, inventado por Mendeleev permitiria que o Super-Tanque pudesse ser atrelado a trilhos ferroviários, funcionando como um tipo de Trem. O objetivo era aproveitar a grande malha ferroviária do país e assim garantir um deslocamento muito mais eficiente. O projeto recebeu pouco apoio e Mendeleev tentou construir o veículo por conta própria. A falta de interesse pelo governo evitou que ele pudesse dar vida ao projeto e fazendo isso, impediu que o mundo conhecesse seu monstro de ferro. Após a guerra, os soviéticos até chegaram a contemplar a possibilidade de recriar o Mendeleev e usá-lo para bombardear cidades ainda controladas pelos contra-revolucionários, mas o alto custo do projeto freou qualquer avanço nesse sentido.

3. O Elefante Voador, Grã-Bretanha



William Tritton, um especialista na construção de tratores e máquinas agrícolas, tornou-se o pioneiro britânico na criação de tanques e veículos blindados durante a guerra. Tritton foi chamado para consertar as falhas no Mark I, o primeiro tanque britânico a ver os campos de batalha lamacentos da França. O grande problema do Mark I era justamente o terreno irregular onde ele deveria operar.

Para lidar com os problemas impostos pelo terreno irregular, os veículos na concepção de Tritton deveriam ser leves e ágeis. Os tanques deveriam permitir uma progressão do veículo até o alvo pretendido. Esse então era fulminado com metralhadoras pesadas Vickers instaladas em bases rotativas. As plataformas móveis dos veículos de Tritton foram um enorme avanço e permitiam aos artilheiros desferir rajadas sobre a posição inimiga em diferentes ângulos. Infelizmente, esses tanques leves não forneciam muita defesa contra artilharia. Tanques leves conseguiam se deslocar com grande mobilidade, mas quando apanhados em fogo cruzado ficavam muito vulneráveis.

Quando vários tanques idealizados por Tritton, entre os quais o AFV se mostraram pouco efetivos no front, o Alto Comando quase terminou com a Divisão de Veículos Motorizados. A Grande Guerra era travada com armas e explosivos muito potentes e um veículo leve, embora conseguisse atingir seus alvos, raramente retornava inteiro das suas missões. A tripulação desses veículos era frequentemente eliminada pelo fogo inimigo. Os veículos se tornavam uma armadilha mortal já que a blindagem dos carros era ineficaz e não era nada fácil escapar de seu interior quando enfrentando fogo pesado.

Pensando em uma solução viável para a questão, Tritton partiu em uma busca por um tanque que pudesse combinar velocidade e blindagem. O projeto concebido em 1916 foi batizado Flying Elephant (Elefante Voador) e contemplava um veículo pesado de aproximadamente 100 toneladas com blindagem de chapas de aço de 3 polegadas na frente e 2 pelegadas nas laterais. Apesar de seu peso exagerado e blindagem pesada, o Elefante era rápido com um motor extremamente potente e esteiras que giravam com enorme velocidade.


O Super-Tanque contava com um canhão de 57 mm, mas algumas fontes afirmam que essa arma poderia ser trocada por um canhão mais eficiente de 75 mm. Nas laterais, o Super-Tanque possuía 2 metralhadoras giratórias Vickers de cada lado. Na parte posterior havia uma plataforma de artilharia giratória com quatro outras metralhadoras móveis que podiam disparar simultâneamente. O poder de fogo do Elefante Voador era considerável e podia acabar com qualquer resistência pulverizando-a em poucos minutos com uma barragem de disparos. Para torná-lo ainda mais letal, essa plataforma giratória elevada poderia receber dois lança-chamas que disparavam ao mesmo tempo a uma distância de até 15 metros. O objetivo era empregar esse lança-chamas para atingir posições subterrâneas e transformar túneis e passagens em um verdadeiro inferno. Tritton usava uma analogia interessante, afirmando que os soldados presos nas trincheiras teriam de fugir como ratos para não serem assados vivos. E que mesmo estes não iriam longe, pois seriam alvejados pelas potentes metralhadoras laterais.

O Elefante Voador além disso tinha outra característica aterrorizante, ele podia ser usado para derrubar instalações e bunkers. Para tanto, o canhão podia ser modificado para disparar um aríete com ponta de ferro para penetrar em paredes. Este aríete era conectado a correntes de ferro que seriam então puxadas até que a edificação cedesse.

No final de 1916, o Super-Tanque recebeu o aval para entrar na fase de protótipos, mas a Grande Guerra terminou antes. O conceito foi abandonado posteriormente quando as forças armadas consideraram que o custo do projeto seria exorbitante e que ele poderia ser detido por condições adversas de terreno. Por muitos anos, a Grã-Bretanha continuou produzindo tanques leves e velozes, até que estes se mostraram completamente ineficientes na Segunda Guerra Mundial. 

4. Char 2C, França



O único Super-Tanque operacional nessa lista foi o Char 2C.

Em dimensões físicas ele foi o maior tanque da história militar a entrar em serviço em tempos de guerra. Seu desenvolvimento se iniciou em 1916, pouco depois da introdução do Modelo Mark I pelos britânicos e os desenhos para a construção de outros veículos blindados no ano seguinte.

Os franceses tinham grande apresso pela ideia de tanques de guerra como uma forma de proteger seus soldados e atingir os inimigos, resguardando os atacantes atrás de uma proteção eficiente. Muitos engenheiros militares acreditavam que no futuro, guerras seriam travadas e vencidas por gigantes de aço que se deslocariam lentamente, deixando uma trilha de escombros após a sua passagem. Com um conceito que parecia ter saído das Novelas fictícias de Jules Verne, os Generais franceses estavam convencidos de que a Guerra seria vencida pela nação que conseguisse construir as armas mais potentes e mobilizá-las com maior velocidade.

Os franceses, aliados dos britânicos, receberam planos para a construção de seus próprios tanques de guerra com base no Mark I e se saíram muito bem. Contudo, eles contemplavam a construção de algo muito mais ambicioso. Um enorme esforço foi feito pelas Forças Armadas para reunir engenheiros e inventores com o propósito de construir um tanque que cumprisse as metas estabelecidas. O primeiro protótipo do Char 2C foi terminado em 1917, mas ele não ficou pronto à tempo de ser usado no conflito. Um modelo chegou a ser enviado para o fronte, mas problemas nas linhas férreas atrasaram que ele chegasse à tempo de ser utilizado. A Guerra terminou uma semana antes dele chegar ao seu destino para frustração dos generais que esperavam testar seu desempenho.

O Char 2C tinha notáveis 10,27 metros de comprimento e pesava pouco mais de 70 toneladas, consideravelmente menos do que os Super-Tanques das demais nações. Contudo, ele tinha uma vantagem sobre todos os outros: o projeto foi completado! 


Apelidado de "Encouraçado de Terra" (em analogia aos navios mais resistentes do período) ele possuía uma blindagem de aço reforçado com 60 mm de espessura na frente e 30 mm nas laterais, o bastante para suportar disparos diretos, granadas e até peças de artilharia. O Super-Tanque era lento e tinha um desempenho ruim no terreno coberto de sulcos e lama. As esteiras acabavam deslizando e era um verdadeiro desafio mantê-lo em movimento em linha reta sem que ele rateasse para fora do curso. Ainda assim, seu motor suportava bem o esforço.

As armas do Char 2C eram potentes: ele contava com um canhão de 75 mm, modelo Canon modèle 1897, a peça de artilharia mais usada pelo exército francês. Em adição a isso, possuía quatro metralhadoras de 8 mm Hotchkiss Mle 1914. Duas eram instaladas numa plataforma móvel no topo, permitindo disparos para frente e para trás, e uma em cada lateral. Em testes, o Super-Tanque teve um desempenho satisfatório, chegando a disparar todas as armas simultâneamente em uma demonstração de seu poder de destruição.

Um dos planos para uso do Char 2C era utilizá-lo no front do sul da França, para empurrar o exército alemão para o norte onde o maior contingente francês aguardava. Para isso, uma coluna de pelo menos 50 tanques deveria ser construída.

Quando a Grande Guerra terminou, os franceses continuaram trabalhando nele, produzindo 10 unidade até 1921. Os Char 2C, porém se tornaram obsoletos à medida que novas armas mais potentes e móveis foram sendo incorporadas a infantaria. Bazucas e lança granadas se mostravam perfeitamente capazes de romper a blindagem dos tanques. Em 1930, os Char 2C eram considerados alvos fáceis para bombardeiros táticos e divisões equipadas com armas anti-tanque.

No início da Segunda Guerra Mundial os poucos tanques Char 2C que ainda faziam parte das Forças Armadas foram mantidos na retaguarda, onde eram usados como peças de propaganda. O público via esses tanques como máquinas invencíveis que desempenhariam um papel central na iminente invasão nazista. Quando a França foi derrotada rapidamente em 1940, eles se tornaram um símbolo da tecnologia ultrapassada do Exército francês diante dos alemães.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Lankhmar - RPG Clássico em Financiamento, corre lá!!!



ATENÇÃO PESSOAL!

CHAMANDO TODOS JOGADORES E MESTRES DE RPG.  RESPONDAM RÁPIDO:

(    ) Você gosta de RPG clássico? 

(   ) Quer conhecer um jogo icônico de Fantasia, Aventura e Mistério?

(   ) Uma Ambientação impressionante criada pelo genial Fritz Leiber?

(   ) Com um sistema incrível, conhecido por ser Rápido, Divertido e Furioso?

(   ) Com a chance de adquirir o material por um preço camarada?

Se você respondeu sim para ao menos uma dessas opções, então você precisa conhecer... 

Essa ambientação é nada menos do que sensacional e está em Financiamento Coletivo pela Retropunk!

Mas, você vai se odiar se não ler essa postagem e deixar de participar no primeiro dia da Campanha.

Por que? Simples! Porque comprando HOJE, você obtém um tremendo RPG com um desconto muito bom. Sem falar que fechando hoje, todo mundo que participou num determinado valor ganha kit de dados (E TODO MUNDO AMA DADOS!)

Não acredita em mim?

Então leia o PRESS-RELEASE da própria Retropunk:

E quando terminar corra para entrar antes das 8 da manhã de terça feira. 

Segue o Release:


A Retropunk tem a honra de trazer: LANKHMAR para Savage Worlds.

Baseado nas obras do genial Fritz Leiber, Lankhmar é uma cidade situada mundo de Nehwon, conhecida como “a cidade dos ladrões” e que serve como cenário para as histórias de dois ladrões, Fafhrd e o Rateiro Cinzento, que vivem às voltas com homens ratos que desejam tomar a cidade, com a temida e poderosa Guilda dos Ladrões, com feiticeiros malignos e várias outras situações e aventuras.

No ano de 2015, a Pinnacle lançou uma versão do cenário usando seu sistema de regras, o Savage Worlds, esta versão agora está sendo lançada pela Retropunk através de um financiamento coletivo. Os jogadores encarnam o papel de ladrões tentando ganhar a vida na caótica e obscura cidade de Lankhmar, correndo atrás de fazer alguns trocados e de quebra salvando o dia.

Sobre os livros e o material do FC em si, temos três livros principais, um livro mega-surpresa, o escudo, a aventura olhos de Goro’mosh, dados e Benes especiais e um mapa de Lankhmar e de Nehwon e uma luva para os livros.


Metas Básicas

Lankhmar: Cidade dos Ladrões
um livro que detalha as principais regras de ambientação e o cenário de Lankhmar, incluindo novas Raças, Vantagens e Complicações, novos antecedentes arcanos (Magia Negra, Branca e Elemental), várias informações sobre a cidade e novas regras de ambientação (incluindo regras para traição!!)

Lankhmar: Histórias da Guilda dos Ladrões um livro com várias Histórias Selvagens que podem te ajudar a começar uma campanha em Lankhmar ou podem servir como histórias independentes.

Lankhmar: Inimigos Selvagens de Nehwon um livro que detalha quem é quem em no cenário, dando fichas das principais personalidades e também um gerador de aventuras para auxiliar a criar suas próprias histórias selvagens.

Lankhmar: Mares Selvagens de Newhon um livro ainda inédito nos EUA que detalha os mares do mundo de Nehwon, dá várias informações sobre a temática, idéias para aventuras marítimas e de pirataria, traz um gerador de aventuras no estilo e um bestiário dos mares de Nehwon.

Dados, Benes, Mapa e Luva e Arquétipos kits de dados e benes exclusivos do cenário, importados diretamente da Pinnacle, além de mapas e uma luva especial para acomodar os livros, além dos arquétipos

Como Metas Extras Teremos:

Escudo um escudo reforçado com arte temática e um resumo das principais regras de ambientação do cenário.

Olhos de Goro’ Mosh, uma mini campanha que trata de uma nova fé que surge em Lankhmar e quanto mais ela cresce, mais cresce o número de corpos encontrados pelas ruas da cidade.

E não é só isso, a Retropunk dará para condições especiais e descontos no dia um, na primeira semana.

Além disso, se a meta for batida já no primeiro dia (Até as 8:00hs do dia 14/11) todos os apoios a partir de 150 reais ganharão um kit de dados exclusivos (1 Kit por Financiador).

Tá aqui ainda?

Corre e veja no (discreto) link abaixo!!!!!!!!



domingo, 12 de novembro de 2017

Fantasmas do Tsunami - Narrativas dramáticas de assombrações em uma tragédia


Desastres horríveis provaram ao longo das eras atrair para si, histórias a respeito de espíritos inquietos pertencentes àqueles que morreram tragicamente. Parece que um número elevado de mortes, ocorridas em um piscar de olhos, e o sofrimento indescritível que isso enseja, acabam reverberando, quase criando uma presença obscura que se fixa nas ruínas onde antes viviam essas pessoas. De fato, alguns dos lugares mais assombrados do mundo estão localizados onde ocorreram crises, guerras, massacres ou que enfrentaram a fúria da natureza.

Uma região do Japão não ficou isenta de tais histórias macabras, e ao fim de um dos maiores desastres da história, além dos destroços restaram incontáveis relatos de almas perdidas, assombrações bizarras e horror sobrenatural.   

Em março de 2011, uma tragédia de enormes proporções atingiu o Japão.

Um Terremoto de magnitude 9 destroçou o país, gerando como efeito direto, um devastador Tsunami que desembocou na costa de Tohoku na parte leste do país deixando um rastro de morte e destruição sem precedentes. Se o tremor de terra e a onda resultante não fossem ruins o bastante, a Usina Nuclear Fukushima Daiichi foi severamente atingida acarretando num derretimento considerado um dos piores da história, envenenando o meio ambiente e causando sequelas em pessoas e animais dali em diante. O evento foi especialmente aterrorizante para quem testemunhou em primeira mão, mas milhões de pessoas, mundo afora, também puderam assistir, estarrecidas os horríveis efeitos em tempo real, em suas próprias casas. Parecia um pesadelo surreal sendo transmitido ao vivo. As imagens remetiam a filmes catástrofe, com um importante diferencial: elas eram verdadeiras!


As populações das áreas afetadas experimentaram um terror indescritível quando a água arrastou tudo em seu caminho em uma inundação de proporções bíblicas. Milhares e milhares de pessoas morreram, muitas outras se feriram ou ficaram desabrigadas, o som dos gritos e o choro complementavam o cenário de carnificina. A paisagem se tornou uma vasta desolação de destroços, carcaças de veículos virados, prédios desmoronados e cadáveres insepultos. Mais do que isso, incontáveis sonhos e aspirações haviam sido destruídos por completo, feridas psicológicas e cicatrizes deixadas na própria alma, danos difíceis de sanar. O impiedoso tsunami arrastou automóveis, arrancou árvores pela raiz e fez cair casas como se essas coisas fossem feitas de papelão. Barcos foram arrastados para o interior do continente pela fúria das ondas. Prédios inteiros desmoronaram como frágeis castelos de cartas. Uma aterrorizante demonstração da fúria da natureza. Das construções que resistiram, a maioria teve de ser colocada abaixo por representarem um grave perigo estrutural. Mesmo o contorno de algumas ruas tiveram de ser refeitas, fazendo com que o desenho das cidades fosse alterado para sempre. E tudo isso, sob o espectro da radiação que vertia do reator fraturado. 

Tohoku mais parecia uma zona de guerra! A sensação encontrava eco no passado, sendo o Japão a única nação a conhecer na carne o poder do horror atômico. Uma vibrante comunidade em um piscar de olhos foi feita em pedaços.  

Ali, entre os destroços, aqueles que sobreviveram tentavam entender o que havia acontecido. Aos poucos, elas foram reerguendo suas vidas e reconstruindo a cidade, enquanto ainda pranteavam os mortos. A essa altura, não se sabia quantos haviam perecido, mas as estimativas eram funestas. Falava-se de milhares de pessoas, números que, lamentavelmente, se mostraram precisos.

Não muito depois do Terremoto e do Tsunami, um estranho fenômeno começou a se tornar frequente: alguns falavam a respeito de encontros com pessoas que haviam morrido na tragédia. Fantasmas de parentes, amigos ou vizinhos que haviam perdido suas vidas andavam pelas ruas das cidades. Testemunhas mencionavam ver fantasmas em fila na frente de mercados e lojas, que haviam sido deixadas em frangalhos. Fantasmas eram vistos em lugares em que elas frequentavam quando vivas. Espectros espreitavam em terrenos baldios, escalando as ruínas de pedra e concreto onde antes ficavam suas casas. Alguns mencionavam aterrorizantes visões de figuras fantasmagóricas correndo em desespero, como se as ondas ainda estivessem lhes perseguindo. Elas atravessavam paredes e se dissipavam em pleno ar. Essas testemunhas afirmavam ver detalhes dessas aparições: algumas tinham uma expressão de medo e horror, outras deixavam evidentes os ferimentos sofridos, os mesmos que talvez tivessem decretado as suas mortes. Os mais assustadores eram aqueles que gritavam e choravam pedindo socorro, ou sussurravam em busca de um auxílio que nunca veio e que jamais viria.


Uma mulher idosa de Onagawa que morreu no desastre e que tinha o hábito frequentar uma casa de chá, era vista com frequência próxima ao local que foi varrido pelas ondas. Algumas pessoas afirmavam até ter conversado com ela que perguntava o que havia acontecido com o local. Quando respondiam, ela chorava e sumia, deixando no local pequenas poças de água salgada. Alguns até comentavam sobre presenças sinistras espiando em becos e janelas, como se estivessem estranhando o ambiente modificado e buscando um contato com os vivos.

Nessa mesma época, uma epidemia de pesadelos irrompeu com força no Japão. Muitas pessoas acordavam no meio da madrugada gritando não pelos horrores que haviam ficado registrados em sua memória, mas aterrorizados com a presença de seres espectrais em seus quartos. Falava-se de espíritos que pisavam ou sentavam sobre o peito das pessoas, sufocando-as. Um cheiro de maresia parecia acompanhá-los e pegadas de água salgada registravam sua presença onde quer que fossem vistos. 

Alguns dos relatos mais desconcertantes provinham de motoristas de taxi que afirmavam parar os veículos para apanhar passageiros no meio da madrugada e descobriam que eles simplesmente desapareciam, algumas vezes, depois de embarcar nos automóveis. Essas narrativas eram muito frequentes na cidade de Ishinomaki, no Distrito de Miyagi, que foi atingido com força pelo Tsunami e registrou a morte de pelo menos 6 mil pessoas, sendo que muitos dos corpos jamais foram encontrados. Aqui, nas ruas escuras, taxistas contavam até ter conversado com alguns desses passageiros fantasmas. Um motorista descreveu ter apanhado uma jovem mulher poucos meses depois do desastre. Ela queria ir até a Estação Ishinomaki, uma área que simplesmente deixou de existir após a inundação. Quando o motorista explicou à mulher que não havia nada lá desde o Tsunami, ela colocou as mãos na cabeça e começou a gritar em desespero. 

"Será que eu morri?", ela perguntou antes de se desmaterializar bem diante dos olhos do condutor.


Muitos outros motoristas na área reportaram experiências similares ao apanhar passageiros e estes simplesmente desaparecerem durante a viagem. Mesmo assim, a maioria deles afirmava que os fantasmas pareciam perfeitamente normais; pessoas que respiravam, falavam e interagiam. Em um caso, um passageiro deu instruções específicas do endereço onde queria chegar que era uma das casas destruídas pelo tsunami. Quando o carro chegou ao local, o taxista olhou para o bando traseiro e ele havia sumido. É interessante ressaltar que nenhuma dessas testemunhas afirmou ter sentido medo no momento, provavelmente por que estavam convencidos de que se tratavam de pessoas de carne e osso, não fantasmas mortos durante uma tragédia. O fenômeno em Ishinomaki foi estudado pelo pesquisador e parapsicólogo Yuka Kudo, um professor da Universidade Tohoku Gakuin, que, como parte de sua tese de graduação entrevistou mais de 100 motoristas de taxi a respeito de seu estranho contato com fantasmas após o desastre de 2011. Vários deles mostraram seus diários nos quais estavam anotadas as corridas em que deram carona para fantasmas. Um dos motoristas explicou que: "não era estranho encontrar fantasmas na área, e que, apesar de nem todos taxistas reconhecerem, a maioria deles já havia tido uma experiência estranha". 

Outras histórias de fantasmas surgiram a área por algum tempo. Escritórios, casas e lojas eram vítimas frequentes de aparições pertencentes a pessoas mortas na inundação. Serviços de emergência eram chamados frequentemente para prestar socorro a pessoas que pareciam feridas ou machucadas. Quando a ambulância ou bombeiros chegava, a pessoa desaparecia como se jamais tivesse existido. Em uma única noite, em Outubro de 2011, o serviço de socorro de  Ishinomaki , registrou mais de 20 pedidos de socorro, sendo que nenhum deles foi cumprido uma vez que a pessoa a ser socorrido havia sumido. O serviço de atendimento de acidentados também recebia ligações de pessoas pedindo socorro, e quando respondiam a eles, descobriam que os endereços dados pertenciam a lugares destruídos. Pessoas em algumas áreas reclamavam frequentemente a respeito de fantasmas e isso fez com que muitos imóveis fossem abandonados ou negociados a um preço abaixo do valor de mercado.

Ainda mais assustador foram aos relatos sobre pessoas sendo contatadas por espíritos pertencentes aos mortos na catástrofe. A coisa chegou a tal ponto que sacerdotes Budistas e Shintoístas foram chamados para exorcizar áreas inteiras contendo destroços onde supunha-se estarem sepultados cadáveres não descobertos. Em um fascinante artigo pelo autor Richard Lloyd Parry para o London Review, intitulado "Ghosts of the Tsunami" (Fantasmas do Tsunami), são reveladas várias histórias de sobrenatural e de exorcismos realizados pelo sacerdote Taio Kaneda, que costumava viajar pela costa com um grupo de sacerdotes após a tragédia para lidar com tais distúrbios espirituais. Um dos relatos mais impressionantes menciona um empreiteiro local, que usa o nome falso "Takeshi Ono" para se identificar.


A história do Sr. Ono começa em sua casa em Kurihara, uma pequena cidade a cerca de 15 quilômetros da costa atingida pelo Tsunami. No momento do desastre, Ono não estava em casa, ele conseguiu deixar a área que foi evacuada às pressas logo após o terremoto. Assim como muitos, ele assistiu pela televisão a chegada do tsunami que chegou a atingir sua casa. Após o acontecimento, ele decidiu que só retornaria para verificar a extensão dos danos uma semana depois para avaliar o que fazer. No dia em que estavam se aproximando do local, Ono contou que começou a passar mal e sentir tontura. De repente ele perdeu a consciência, mas disse ter continuado a sentir uma estranha percepção dos seus arredores: "Era como estar em um sonho, mas eu sabia que estava vendo algo mostrado pelos espíritos que desejavam falar através de mim e se comunicar com seus entes queridos".  Ono que não esteve presente ao desastre disse ter experimentado toda a caótica destruição e desespero, conforme ele se recorda: 

"Eu via os destroços, eu via o mar se aproximando. Eu via os prédios caindo e ouvia as pessoas gritando ao meu redor. Não era uma alucinação, eu sentia a atmosfera de medo e o desespero das pessoas ao meu redor. Foi um choque! É difícil de descrever, pois embora eu estivesse no centro dos terríveis acontecimentos, eu não podia fazer nada para ajudar, e também não podia ser atingido por tudo que estava ao redor. Meu primeiro sentimento foi que estava enlouquecendo, sobretudo, porque logo em seguida me vi cercado de inúmeras pessoas com ferimentos pavorosos. Então eu soube que eles queriam se comunicar e que precisavam fazê-lo através de mim". 

Desde essa primeira experiência, o Sr. Ono passou a integrar o grupo dos sacerdotes, trabalhando com eles na localização de cadáveres que não haviam sido encontrados pelas equipes de resgate. Segundo o grupo, eles tiveram sucesso em localizar mais de 20 cadáveres que estavam perdidos em baixo de toneladas de escombros. Segundo o Sr. Ono, seu talento se deve ao fato dos próprios espíritos avisá-lo onde escavar e onde encontrar os restos soterrados.

Um outro caso, ainda mais incrível envolvia uma senhora de 56 anos que se dizia acometida por um espírito amargurados que a culpava por ter escapado do desastre. A pobre mulher, passou a sofrer com surtos de violência nos quais tentava agredir pessoas que haviam sobrevivido chamando-os de "malditos" e dizendo que "eles mereciam estar mortos". Em uma ocasião, ela correu pelas ruas gritando que "todos precisavam morrer para que os espíritos tivessem paz". A mulher foi capturada pelo marido e filhos e precisou ser sedada. Em uma cerimônia de exorcismo, ela gritou que podia ver uma multidão de pessoas que haviam morrido na inundação:

"Eles estão cobertos de lama! Estão cobertos de sujeira e molhados! Eles estão com frio e apavorados! Estão furiosos por terem morrido! Eles nos odeiam porque nós estamos vivos e eles não!" ela repetia sem parar. Depois de várias sessões de exorcismo, os sacerdotes decretaram que ela estava livre da influência dos espíritos e que estes haviam finalmente se dissipado.


O sacerdote Kaneda contou ter participado de vários exorcismos semelhantes envolvendo espíritos do tsunami. "Nem todas as pessoas mortas durante a tragédia eram capazes de superar o terror que experimentaram nos últimos instantes de suas vidas terrenas. Isso fez com que eles perdessem parte de sua humanidade e se tornassem ressentidas", explicou ele.

Um dos casos emblemáticos, segundo Kaneda envolvia uma mulher chamada "Hira" que dizia sentir "pessoas diferentes habitando seu corpo" nos meses posteriores ao tsunami. A mulher ficou em coma por uma semana após a tragédia e sobreviveu quase por milagre. Segundo ela, quando despertou de seu coma, sentiu imediatamente a presença de vários fantasmas que a seguiram quando ela retornou ao seu corpo. "Era como se eles tivessem se apegado a mim e quisessem continuar vivendo dentro do meu corpo", descreveu a mulher. 

Keneda conseguiu exorcizar esses espíritos que na sua avaliação eram pessoas confusas e furiosas que ainda tinham assuntos a resolver na terra dos vivos. "O desastre condenou à morte todo tipo de pessoa. Boas e ruins! Algumas pessoas eram naturalmente egoístas e estavam ressentidas por terem morrido, culpando os vivos pela sua tragédia. Muitos deles após uma sessão aceitavam partir, outros se apegavam aos vivos como a única forma de continuar aqui. Esses causavam mais danos".


Kaneda explicou que pelo menos 20 espíritos habitavam o corpo de "Hira" simultaneamente. Um desses pertencia a um homem de meia idade que queria saber onde estava sua filha e se ela havia sobrevivido. Ele disse que ela estava em casa e que o lugar havia desaparecido com a tragédia. Quando Kaneda descobriu que a menina estava viva, o espírito aceitou partir. Outros não eram convencidos tão facilmente, o espírito de um rapaz era tão agressivo que foi capaz de usar o corpo de "Hira" para atacar o sacerdote e desferir nele uma mordida. Quando ele conseguiu fazer o espírito deixar o corpo ele teria dito:

"Mas o caminho para a luz é tão pequeno, e há tantas pessoas ao meu redor. Eu não consigo sequer ver o caminho que devo seguir".

Outra exorcista a agir desde os primeiros dias após a tragédia, era a monja Kansho Aizawa que afirmava ser capaz de ver os espíritos de centenas de pessoas vagando sem destino pelas ruas destruídas: "Era como ver uma cena de filme de horror. As pessoas feitas em pedaços, com o corpo desfigurado, sem braços ou pernas, vagando e se arrastando sem destino, perguntando para onde deveriam ir, o que deveriam fazer", contou ela. "Foi algo aterrorizante, mas também extremamente comovente. Depois de presenciar aquilo decidi que algo precisava ser feito do contrário eles vagariam para sempre nessa condição".

A explicação para toda essa comoção no mundo espiritual depende da fonte consultada. Para os que acreditam em tal coisa, um fantasma sem descanso vaga indefinidamente até cumprir sua sina. No folclore japonês, essas aparições são chamadas de Gaki, ou "fantasmas famintos", pois acredita-se que eles sentem um apetite por tudo que está vivo e passam a se alimentar da energia dos vivos para se perpetuar. Um Gaki se forma quando ocorre uma morte traumática com violência e dor, com angústia e medo. Eles passam a viver próximo dos vivos, em uma espécie de limbo para o qual se retiram na maior parte do tempo, contudo, em certos lugares ligados ao seu trauma, eles podem se materializar e ser sentidos pelos vivos, em especial pessoas com dom para sensitividade.


Para aqueles que buscam uma explicação mais científica e racional, é possível que muitas pessoas que experimentaram o desastre tenham desenvolvido uma espécie de desordem pós-traumática (PTSD). Nesse caso, os fantasmas seriam meras projeções mentais ou alucinações causadas pelo terror e stress que eles testemunharam e suportaram, ao invés de presenças sobrenaturais do outro lado. De fato, várias instituições de apoio psiquiátrico conduziram estudos a respeito de pessoas que tiveram perdas significativas e que passaram a sofrer de PTSD. Os estudos demonstram que existe a tendência de se experimentar tais alucinações, mas nada explica a atividade sobrenatural que outros parecem manifestar.  

Não resta dúvida que a total aniquilação de cidades e de seus habitantes pela tragédia de 2011 no Japão deixou profundas marcas nas mentes e no espírito dos sobreviventes. O horror em estado puro, a morte e a destruição inexorável, são algo que apenas o tempo poderá curar, e mesmo assim, existe o temor de que tais tragédias possam se repetir já que a região é suscetível a esse tipo de distúrbio natural.  

Será que assombrações e fantasmas são capazes de se formar após um incidente de dor e tristeza extremos como esse? Existem mais do que meras sombras vagando pelas ruas das cidades em reconstrução? Fantasmas estão fadados a permanecer espreitando nos lugares onde costumavam ir quando vivos? Se a resposta for sim, até quando? São muitas as perguntas sem resposta.

Se as ruínas do tsunami guardam mistérios sobrenaturais ou não, é provável que nunca saibamos. É entretanto, suficientemente assustador, olhar para as imagens da devastação e imaginar quantas pessoas perderam suas vidas em meio a essa tragédia. Mas pior ainda, é imaginar que algumas dessas vítimas podem continuar a sofrer...

...para sempre!